quinta-feira, 10 de junho de 2021

O que é Possessão para a ciência?

A possessão é um fenômeno tão antigo  quanto a humanidade, existem relatos históricos em quase todas as civilizações antigas. Tal fenômeno social apesar de sua anormalidade intrínseca é mais comum do que se pode imaginar e não poderia ser ignorado pela ciência.

Assim sendo, como veremos nesta matéria não só é um fenômeno reconhecido e estudado clinicamente, como também são definidos seus sintomas e possíveis tratamentos médicos. 

 
Homem possuído no hospital Miguel Couto - RJ.

 

Perda de identidade?

Áudio do caso de possessão de Emily Rose.
 

Como vimos acima desde o começo da humanidade existem relatos sobre possessão, em diversas culturas. Porém sempre era associada a presença de alguma entidade malévola que estaria ocupando o corpo de determinada pessoa. A pessoa possuída pode apresentar comportamento diferente do habitual, voz alterada, ouvir vozes, ver coisas que mais ninguém consegue ver no ambiente, e até mesmo apresentar uma força fora do normal, mas o que poderia ser isso? O fato é que diversos problemas neurológicos podem causar perda de identidade, memórias, alucinações, delírios e fala incompreensível, então contextualizar simplesmente como um evento que necessita de intervenção religiosa pode ser muito prejudicial para a pessoa, pois poderia priva-la de uma ajuda efetiva caso seja constatado algum problema clínico.

                                                   Filme "Exorcista", baseado em fatos reais.

Historicamente o "delírio espírita episódico" era uma doença frequente e responsável por 5% a 10% das internações psiquiátricas. Atualmente episódios de transtorno dissociativo (divisão da própria cognição e identidade) foram identificados em 11% dos adultos durante sua vida e com prevalência de 6%/ano.

O transtorno de transe e possessão(CID-10) ou Transtorno de Transe Dissociativo(DSM-IV) é um transtorno dissociativo caracterizado por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Deve ficar claro que: 

"Apenas estados de transe involuntários e não desejados são considerados transtorno, não deve ser classificado como doença quando ocorre apenas em situações adequadas ao contexto cultural ou religioso do sujeito."


 

Possíveis Causas

O Transtornos dissociativos geralmente ocorrem em relação temporal estreita com eventos traumáticos, problemas insolúveis e insuportáveis, ou relações interpessoais difíceis. Ocorre uma cisão (divisão) do ego(identidade pessoal) e uma nova personalidade com lembranças, consciência, identidade, percepção e controle dos movimentos corporais peculiares é formada. Esse fenômeno é conhecido como transtorno de despersonificação ou como transtornos egodistônicos.

Podem ser causadas por sugestão, sendo relacionado a sugestionabilidade do indivíduo, como uma hipnose ou, em casos mais graves, uma lavagem cerebral. O impacto e eficiência da sugestão é proporcional ao quanto a ideia sugerida atende às necessidades emocionais do individuo e de sua cultura. Ou seja, quanto mais emocionalmente e psicologicamente abalado, com vida social e familiar insatisfatória, ansioso por aprovação social, impulsivo e emotivos mais sugestionável.

Também podem ser causados por excesso e falta de neurotransmissores de forma similar a esquizofrenias e delírios. Especialmente desregulação nas vias de dopamina, serotonina e catecolamina atuando em áreas relacionadas ao autocontrole, percepção, raciocínio e cinestesia.

 

Sinais e sintomas

                                       Criança apresentando sinais de possessão.
 

Os sinais e sintomas são muito similar a um transtorno de "múltiplas personalidades", mas possuem forte questão espiritual, cultural e social envolvidas. No transtorno de Transe Dissociativo assim como no transtorno dissociativo de identidade (vulgarmente conhecido como múltiplas personalidades) as principais características são a perda parcial ou completa das funções normais de integração das lembranças, da consciência, da identidade e das sensações imediatas, e do controle dos movimentos corporais. Assim, a "possessão" é como uma nova personalidade criada pela própria pessoa com suas peculiaridades, tom de voz, gostos, controle de movimentos, identidade e lembranças distintos.

 

Diagnóstico

Basicamente a diferença entre possessão saudável e transtorno que requer tratamento é o quanto de prejuízo ele causa.

 

a. Sinais que é apenas uma experiência cultural:

    Ausência de sofrimento psicológico;

    Ausência de prejuízos significativos sociais, escolar ou no trabalho;

    A experiência tem duração curta e ocorre episodicamente;

    Atitude crítica sobre a realidade objetiva da experiência;

    Compatibilidade da experiência com o grupo cultural ou religioso do indivíduo;

    Não associado com outros transtornos psicológicos;

    A experiência gera crescimento pessoal;

    A experiência é controlada;

    É uma experiência social.

 

b. Sinais que é um transtorno psicótico ou dissociativo com conteúdo religioso:

    Causa sofrimento;

    Causa prejuízo social, escolar ou no trabalho;

    Associado a outros sintomas psiquiátricos;

    Incongruente com a religião e cultura do indivíduo;

    Involuntário;

    Desestruturante;

    Indesejado;

    Persistente;

 

Observação importante:

Até hoje convulsões, psicoses e transtornos dissociativos são confundidos com possessão demoníaca e as vítimas sofrem com preconceito, tortura ou assassinadas por ignorância dos observadores.

Estar fazendo tratamentos espirituais não impede tratamentos psicológico e psiquiátrico de serem feitos simultaneamente. O critério recomendado por médicos e psicólogos para diferenciar possessões que precisam ou não de tratamento é o quanto de sofrimento, perigo e prejuízo eles causam: Quanto mais prejudiciais e frequentes forem os episódios mais urgente a necessidade de tratamento.

Dentre os pacientes tratados 67% conseguem fazer uma reintegração social e cognitiva saudável e estável em uma média de 21.6 meses. A maioria dos que continuam instáveis e desintegrados demonstram melhora significativa. A recomendação médica é de 3 sessões de 1h por semana iniciais de psicoterapia dinâmica e pelo menos uma sessão por semana após o indivíduo alcançar maior estabilidade durante 2 anos. Pode durar mais caso o paciente não esteja produtivo e saudável ao final de 2 anos.


Dúvidas? sugestões? Deixem nos comentários. Se gostaram deem um curtir e compartilhem. E não esqueçam de clicar em um dos anúncios para nos ajudar a continuarmos com nosso trabalho. Muito obrigado.

Prof. Marcos Antônio Ribeiro dos Santos



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