quinta-feira, 25 de março de 2021

Falcão & Soldado Invernal: Por que a terapeuta do Bucky Barnes é uma péssima profissional?

 

A série Falcão e Soldado Invernal da Disney+ em seu primeiro episódio nos trás Bucky Burnes, um herói arrependido de seu passado como agente do grupo terrorista Hydra. Ele está em busca de perdão pelos seus crimes e uma das condições impostas pelo governo é que ele participe de sessões de terapia para demonstrar compromisso em querer mudança. Porém, vemos em determinado momento Bucky perdendo a paciência e falando para a terapeuta: você é uma péssima profissional! Será que ele está certo? Vamos analisar as ações da profissional:
 
Logo no início da sessão a profissional pergunta à Bucky se ele ainda está tendo pesadelos, nada fora do comum já que o trabalho com conteúdo dos sonhos é uma técnica psicanalítica para ajudar o profissional a ter acesso ao inconsciente do paciente para descobrir coisas que o paciente pode não estar revelando de maneira direta por alguma resistência.  Bucky como não gosta de falar de sua época de assassino que o atormenta e das coisas que fez, mente e fala que não está tendo pesadelos, a analista depois de ouvir sua resposta fala: você está mentindo, conheço você já a algum tempo para saber o quanto mente! Na verdade ao fazer isso um profissional na vida real cortaria totalmente qualquer possibilidade de desenvolver uma relação analista/analisado. 

Quando o paciente procura um profissional ele está necessitando de ajuda para poder lidar ou superar alguma forma de sofrimento com questões que não consegue lidar sozinho e tem dificuldade de revelar mesmos nas sessões, precisando de tempo e se sentir seguro para falar com o paciente sobre seus traumas muito pessoais, jamais deve ser confrontado ou colocado contra a parede. 
 
Depois vendo que Bucky continuava sem falar a terapeuta pega o bloco de anotações fazendo o paciente protestar: Já vem com esse lance de pegar o bloquinho, isso é tão passivo agressivo, mostrando que não é a primeira vez que ela toma esta atitude. E a sua terapeuta confirma: se você não fala eu anoto. Mostrando que realmente ela fazia isso para provocá-lo como uma espécie de punição, mais uma vez uma atitude que só afastaria mais o paciente, criando mais resistência, desenvolvendo tensão entre as partes, tornando cada vez mais difícil uma aproximação e relação de confiabilidade analista/analisado.
 
Na sequência ela pede o telefone para ver os contatos de Bucky e fala: Não tem nem dez contatos. Só tem ligações para mim que sou sua terapeuta, e isso é triste! Mais uma vez vemos julgamento, exposição e humilhação do paciente, também uma causa que por si só destruiria a possibilidade do surgimento de uma aliança de confiabilidade, ao contrário só aumentaria o sentimento de desconfiança e retraimento do paciente. E por fim ela pergunta para Bucky o que ele quer e ele responde: Paz! - e ela fala de novo: Mentira! 
 
Lógico que em função do roteiro tudo isso é colocado para reforçar o perfil oculto de Bucky para reforçar que ele tem um passado sombrio não deixando ninguém se aproximar e também para dar um toque de humor que é próprio da série. Mas infelizmente quem procura algum tipo de terapia deve ficar atento por que infelizmente o mercado está cheio de péssimos profissionais como em qualquer área. Nunca aceite qualquer tipo de tratamento que te constranja, caso ocorra saia da sessão e procure um novo profissional. Confiança, respeito, e acima de tudo compreender as limites do pacientes são expressamente importantes e fazem parte da conduta ética do profissional.  
 
Claro que em alguns casos de pacientes muito resistentes que depois de inúmeras sessões não apresente uma evolução na comunicação e se protege em seu silêncio deve haver uma abordagem do profissional e explicar ao paciente que o tratamento não poderá evoluir enquanto ele não conseguir minimamente falar sobre seus problemas. O silêncio do paciente é normal, afinal não é fácil revelar fraquezas, dores e mágoas profundas, mas se durar indefinidamente nas sessões o terapeuta tem que tentar entender o que está acontecendo e abordar esse ponto, e até mesmo caso verificar que não está sendo possível estabelecer um vínculo indicar a procura de um novo profissional para o paciente, para que ele possa talvez se sentir melhor e desenvolver um vínculo de confiança.


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terça-feira, 9 de março de 2021

Wandavision fornece uma importante análise sobre luto e o sentimento de perda

A recente série Wandavision do serviço Streaming Disney + nos trás  tema muito difícil, o luto e o sentimento de perda daqueles que amamos e as consequências da não aceitação dessa realidade. A morte chega para todos, de forma natural ou não mas nunca é fácil para aqueles que ficam. Em Wandavision,  Wanda Maximoff a personagem principal criou toda uma realidade a sua volta, para se proteger da dor da perda de seu amado Visão que morreu pelas mãos do vilão Thanos no filme Vingadores Guerra infinita, isso depois da morte de outra pessoa próxima a ela, o irmão Pietro em Vingadores: A era de Ultron. 

Wandavision apresenta além de uma ótima série de suspense,  uma forma de olhar um a tema difícil de maneira inteligente.

 

Negação

Essa construção de uma nova realidade com o Visão "vivo" trás um cenário onde estão casados em uma vida perfeita com casa, empregos e filhos. A negação é uma tentativa de nossa mente de nos proteger e no processo de luto é um dos primeiros estágios. 

 

Fantasia 

A fantasia é também uma forma de autoproteção de nossa mente, assim como a negação ela não aceita a realidade, porém na fantasia além da negação há a substituição.

 

Raiva

Vemos posteriormente Wanda agir de forma agressiva contra aqueles que tentam faze-la desistir da ilusão, libertar as pessoas e voltar para a realidade. A raiva também está presente no processo do luto, uma vez que duro aceitar a dor da nova realidade.


Depressão

No episódio 7 após ter expandido a energia da barreira para salvar Visão e manter a realidade na cidade no episódio anterior Wanda mergulha na depressão não conseguindo levantar da cama ou do sofá, e sem disposição para qualquer atividade, tudo parece confuso e fora de lugar. A depressão é outra fase do luto,  a pessoa começa a entender que não adianta fugir da realidade por meio da negação ou raiva, pois a dor está lá. E quanto mais rápido ela entender isso mais rápido ela chegará a próxima fase do processo de luto: aceitação.

 

Aceitação

A agente Monica Rambeau no episódio 7 confronta Wanda para traze-la a realidade. Rambeau também perdeu uma pessoa. Ao retornar depois de cinco anos em que havia desaparecido devido o estalar de dedos cósmico do Vilão Thanos, ela se encontra em um mundo onde a pessoa mais importante para ela, sua mãe havia morrido. Rambeau compartilha a sua dor com Wanda e diz que a dor já faz parte dela, da nova pessoa que ela é. Agora ela é uma pessoa mais forte por ter passado pela experiência da perda nada mais a abala, e ela quer compartilhar isso com Wanda. Temos que aceitar que pessoas partem de nossa vida e esta dor que fica pode nos destruir ou nos transformar.
 
 
Paradoxo de Teseu e evolução 

 
No último episódio temos a menção do paradoxo de Teseu que simboliza a renovação da personalidade humana no decorrer da existência nos transformando em novas pessoas na jornada de nossa existência. Não poderia ser mais adequado, pois as dores e aflições em nossas vidas são absorvidas e nos transformas em novas pessoas, mais fortes e mais sábias uma vez que compreendemos a necessidade de aceitar.
 

Continuação da Jornada
 
 
No final depois da aceitação da inevitabilidade Wanda descobre sua verdadeira identidade, renascendo como um novo ser místico, e por fim se despede de Visão e seus filhos e parte para a continuação de sua jornada, deixando a cidade para trás, virando uma nova página.


O processo de luto

- choque e incredulidade;

- À medida que a perda é assimilada, a pessoa enlutada aceita a dolorosa realidade da perda;

- Preocupação com a memória da pessoa morta;

- A pessoa liberta-se gradualmente do laço com a pessoa morta;

- Resolução;

- A pessoa enlutada renova seu interesse pelas atividades cotidianas.

 

1º estágio: choque e incredulidade

Pode durar várias semanas, especialmente depois de uma morte repentina ou inesperada;

As pessoas sentem-se perdidas e confusas;

Reações físicas são comuns: falta de fôlego, aperto no peito ou na garganta, náusea e sensação de vazio no abdômen;

O entorpecimento inicial dá lugar a sentimentos esmagadores de tristeza e choro frequente.

 

2º estágio: preocupação com a memória da pessoa morta

Pode durar seis meses ou mais;

A pessoa tenta, mas ainda não consegue aceitar a morte. O viúvo pode reviver a morte de seu par e todo o relacionamento;

De tempos em tempos, pode sentir a presença de seu par, ouvir sua voz e até mesmo ver seu rosto diante de si. Pode ter vívidos sonhos com ele. Essas experiências diminuem com o tempo, mas podem reaparecer;

Os choros continuam, com frequência acompanhados de insônia, fadiga e perda de apetite.

 

3º estágio: resolução

A pessoa enlutada renova seu interesse pelas atividades cotidianas;

As lembranças da pessoa morta suscitam sentimentos de afeição misturados com tristeza, mais do que dor aguda e saudade;

O viúvo/a viúva pode ainda sentir falta de seu par, mas torna-se socialmente mais ativo: sai mais, vê pessoas, retoma antigos interesses e talvez descubra novos interesses;

Embora o processo de luto com três estágios seja comum, não segue necessariamente esse padrão;

Ele pode produzir uma sucessão de altos e baixos emocionais de duração variável, os quais podem com o tempo amainar, porém sem nunca desaparecer completamente.

 

 

“Todo tempo em que pensei estar aprendendo a viver, estive aprendendo a morrer”

Leonardo Da Vinci


 

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